13.7.09

O grande mito do jornalismo imparcial




Por Ana Cristina Santos





Desde os tempos mais remotos, quando ainda éramos ingênuos ocupantes dos bancos da academia, ouvimos a falácia de que o jornalista nada mais é do que um narrador dos fatos, um intérprete da realidade, um intermediário entre a ação e o receptor. Um ente desprovido de sentimentos, que como tal deve transmitir isenção e imparcialidade. Na faculdade, além de nos familiarizar com as técnicas, muitos de nós sonhávamos em nos tornar paladinos da ética e da verdade. Eu pelo menos acreditava nisso, e cá entre nós, continuo acreditando.

Quando faço alusão aos “tempos de faculdade”, acho impossível não lembrar dos caricatos professores de medicina do filme Patch Adams – O amor é contagioso. Guardada as devidas proporções éramos, na maioria, matéria prima a ser moldada para a guerra, seres inferiores dispostos a abandonar a condição humana para nos tornarmos JORNALISTAS!

No entanto a realidade não costuma tardar e ela se estabelece definitivamente quando ainda somos focas, patinando nas redações, nas assessorias ou no incólume mercado de free-lancers. Aos poucos vamos nos perdendo e assimilando, em nome da sobrevivência, que a verdade não vem dos fatos e sim da linha editorial. Evidenciar detalhes para comprovar as nossas teses em relação ao que noticiamos é utilidade pública, como se os espectadores fossem incapazes de ter opinião própria.

Os utópicos bobalhões são transformados em bons profissionais. Caberia aqui uma risada maléfica, mas isso não é, pelo menos por enquanto, um desenho animado. Se bem que essa não é uma má idéia. “As aventuras de um foca contra a perversa linha editorial”. Nada clichê: um mocinho de óculos e uma vilã indestrutível®

Voltando a realidade, e ao objetivo desse texto – com as devidas desculpas ao leitor pelas divagações infundadas - o que quero defender é a necessidade de um jornalismo ético. Percebam que não falo em imparcialidade, nem imagino que isso seja possível em nenhuma área, muito menos no jornalismo, feito por seres humanos submetidos aos mais diversos poderes e interesses. Para mim caiu o mito da imparcialidade, mas permanece a idéia de um jornalismo ético, feito com respeito e honestidade.

A diferença, acredito, e longe de mim querer ser a dona da verdade, está no modo que vendemos nossa notícia. Os noticiários da mídia comercial, por exemplo, seriam perfeitos se estivesse claro para a sociedade quem os edita, com que objetivos e através de que instrumentos. Mas isso não acontece, a maior parcela do povo brasileiro recebe as matérias e reportagens como a mais pura expressão da verdade.

Assim foi eleito o presidente Collor, assim Sadam Husseim foi demonizado, assim as pessoas passaram a acreditar que o Legislativo do nosso país não tem nenhuma utilidade, e assim, essas mesmas pessoas, continuam votando e elegendo os mesmos indivíduos para representá-las no Congresso. No entanto, como ninguém consegue mentir para todos o tempo inteiro, e compreendendo que a comunicação seria o quarto poder e não o único, é preciso citar que algumas reações no campo da sociologia podem ser percebidas. Esboços de idéias progressistas começam a surgir no seio da população e assim, para nossa sorte, não estamos definitivamente condenados ao caos.

Do ponto de vista da comunicação imagino que com a popularização da internet - e o possível diálogo direto entre o protagonista e o público - a hegemonia dos grandes grupos será quebrada, já é possível percebe os primeiros sinais, basta analisar com cuidado o caso emblemático do Blog da Petrobrás. Esperemos, portanto, as cenas do próximo capítulo.

Por enquanto continuo firme em minha opinião: Jornalismo que não diz a que veio - que se cobre com o manto da imparcialidade consciente da sua incapacidade em expressar somente os fatos, isentos de opinião, oferecendo as mesmas condições aos vários ângulos do objeto reportado - independente do veículo que utiliza, é um desserviço.

Acredito, no entanto, que uma imprensa capaz e consciente do seu papel social pode fazer uma população mais crítica e preparada, isso é plenamente possível e poderia começar com uma mudança nos currículos dos cursos de comunicação, dando um outro peso ao necessário diploma; passando ainda por aspectos ligados a democratização do acesso à informação e a revisão do papel das concessões públicas, mas isso já é uma outra história.


*Ana Cristina Santos é uma sonhadora com título de comunicóloga. Atualmente tenta entender melhor as bases da comunicação pública e mantém o firme propósito de deixar uma sociedade melhor para as futuras gerações.

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