21.7.09

Jornalistas não entendem as mídias sociais





Por Carine Roos


A pesquisa “As percepções dos jornalistas da EBC sobre mídias sociais” surgiu a partir da constatação de que no Brasil não há pleno diálogo entre os cidadãos repórteres (mídias sociais) e as mídias convencionais. A efetiva interação é entendida nesse estudo quando uma mídia convencional cita, publica ou agrega a notícia realizada pelo cidadão à sua informação, realidade que já acontece nos Estados Unidos, Europa e Argentina. Exemplos que ilustram essa situação são os sites de notícias El Clarín e o El País que permitem a qualquer cidadão criar blogues pelas suas próprias páginas na internet. Da mesma forma, o jornal americano New York Times já publicou várias matérias do Global Voices, um observatório de blogues internacionais feito por cidadãos de vários países.


É com esse objetivo que o estudo irá questionar à comunidade jornalística na tentativa de entender, a partir de sua percepção e avaliação sobre as mídias sociais, a ausência desse diálogo. Para tal, foram realizadas entrevistas com 14 jornalistas da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC) em três veículos diferentes, entre eles, a Agência Brasil, a Rádio Nacional Amazônia e a TV Brasil. As 14 entrevistas foram feitas conforme a proporcionalidade dos entrevistados nos veículos. Elas foram iniciadas em 18 de março de 2009 e finalizadas em 28 de abril de 2009. Na Agência Brasil, seis jornalistas fizeram parte da amostra, sendo quatro repórteres, um coordenador de edição e um editor. Na Rádio Nacional Amazônia foram entrevistados três jornalistas, entre os quais, um repórter e dois editores. E na TV Brasil foram entrevistados cinco jornalistas, sendo dois repórteres, dois editores e o editor-chefe.


O estudo partiu do princípio de que jornalistas de diferentes veículos, com formações distintas, e hierarquias diversas trariam resultados díspares. Foi elaborado um questionário com 20 questões, sendo 13 fechadas e 7 abertas. As perguntas eram as mesmas para todos os entrevistados e foram respondidas individualmente. Para preservar a privacidade e o direito de se expressar sem ser identificado, foi garantido o anonimato aos entrevistados.


Essa pesquisa constata que os jornalistas da EBC, em geral, não compreendem a mudança no que tange à readequação do seu papel a partir da cultura da internet e as ferramentas que dela advém, como as mídias sociais. Os jornalistas não estão atentos, de fato, a esse novo paradigma da comunicação. Nesse sentido, esses profissionais ainda não entendem que, com o surgimento de novas plataformas de publicação de notícias e informações, como blogues e sites alimentados pelos cidadãos repórteres, ocorre uma reestruturação dos papéis de emissor e receptor. Portanto, os jornalistas, agora, passam a compartilhar o espaço com a audiência na Internet.


Os entrevistados, numa perspectiva geral, percebem as mídias sociais no máximo de uma forma colaborativa, ou seja, apenas sugerindo pautas, enviando fotos, comentários, críticas, sugestões às matérias. A percepção que vigora deles no que tange à interação, não é a do cidadão como produtor de notícias, como alguém que participa ativamente na construção das mesmas. Dessa maneira, a estrutura jornalística não é rompida, a tendência é a reprodução dessas estruturas de produção da notícia atreladas às hierarquias de poder.


Assim sendo, os mecanismos que impedem um diálogo maior entre as duas mídias, tendo como parâmetro a percepção dos jornalistas da EBC, em sua maioria, ocorre por dois motivos: O primeiro é que os próprios não dão credibilidade às mídias sociais, por vários motivos, dentre os principais são porque o cidadão não tem competência para fazer notícias, temem que este passe uma informação errada e ajam de forma anti-ética, assim como não sigam os critérios de noticiabilidade. Essa conjuntura acaba por impedir que as notícias divulgadas por esses cidadãos sejam igualadas, em status, com as dos jornalistas.


O segundo motivo, a estrutura de trabalho impede uma maior integração entre mídias sociais e convencionais o que, por conseqüência, acaba por dificultar a percepção destes jornalistas no potencial que as mídias sociais possam ter em noticiar.


Em agosto de 2007, o Estadão fez uma campanha publicitária comparando blogueiros à macacos que apenas copiam e colam matérias publicadas na internet. Na mesma linha, a revista Imprensa publicou, em setembro de 2008, matéria intitulada “Blogueiro não é jornalista”, afirmando a diferenciação entre a atividade jornalística e a do blogueiro. Situações como essas explicam o cenário acima revelado, os jornalistas não admitem perder o controle da difusão da informação.

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