3.7.09

Entrevista com jornalista Gay Talese



O portal G1, da Globo, publicou uma entrevista com o jornalista norte-americano, Gay Talese. Achei pertinente republicar na íntegra a entrevista do portal. Segue a entrevista. Aqui a matéria no G1.


Entrevista G1 com Gay Talese


O jornalista norte-americano Gay Talese, do alto de seus 77 anos, já se debruçou com sucesso sobre a difícil tarefa de contar a trajetória do “New York Times”, conseguiu transformar um simples resfriado de Frank Sinatra no perfil mais conhecido e clássico do cantor e é considerado, apesar de suas resistências, um dos pais do “new journalism”, gênero surgido nos anos 60 em que a reportagem mais se aproximou da literatura. Mas Talese segue curioso pelo que o mundo descortina a cada dia e disposto a viajar até o Brasil só para falar de suas experiências.

Ele é uma das atrações da Festa Literária Internacional de Paraty, onde conversa com o jornalista Mario Sergio Conti no próximo sábado (4). O autor de “O reino e o poder”, sobre a história do “NYT”, e “A mulher do próximo”, em que narra o desenvolvimento dos hábitos sexuais dos americanos, conversou com o G1 na cidade fluminense, na sua segunda vinda ao Brasil.

De terno e gravata, combinados a um estiloso chapéu Panamá, Talese falou por uma hora a respeito do estado do jornalismo hoje em dia, sua admiração pela trajetória de Barack Obama e que nunca se incomodou com as piadas sobre seu nome.

G1 – Nos últimos meses as empresas de mídia nos Estados Unidos têm apresentado problemas financeiros, e muitos jornais têm fechado suas portas ou diminuído sua estrutura. É uma época difícil para o jornalismo?

Gay Talese – Não é difícil para aqueles que têm uma abordagem, um jeito de trabalhar que é diferenciado. O desafio é ser distinto do fluxo de informações que existe hoje em dia. Neste momento nós não sabemos quem é o jornalista, porque a tecnologia nivelou essa condição. Veja, uma pessoa que tem uma câmera fotográfica pode fazer bem um trabalho de jornalismo testemunhal, algo que aconteceu de forma preponderante no 11 de Setembro. Hoje em dia uma pessoa que tem um blog pode ser vista como um jornalista.

Um diploma não torna você um jornalista. Fiquei sabendo da decisão do Supremo Tribunal Federal brasileiro e é uma decisão provavelmente certa. O que faz alguém um jornalista e, mais do que isso, um profissional necessário, é ter posse de informações que vão influenciar as escolhas dos cidadãos de um país. E isso é conseguido através de informação precisa, que ouça todos os lados e seja objetiva. Quando se vai além da informação óbvia. Algo que dê profundidade, que dê perspectiva. Se o jornalismo deixa de lado a tarefa de fazer um trabalho realmente notável então ele se torna dispensável. Neste momento, o jornalismo precisa definir o que fará para se diferenciar de qualquer um que tenha tecnologia à disposição.

G1 – Após cinco meses de Barack Obama como presidente, o sr. acha que a imprensa norte-americana vem cumprindo bem o papel de uma análise firme de seu desempenho?

Talese – Não. Existe uma atmosfera que se cristalizou depois do 11 de Setembro. Não há mais excelentes repórteres, heróis como existiam nos anos 60. Pessoas que faziam, por exemplo, a cobertura da Guerra do Vietnã, e que colocavam em dúvida o que o governo dizia. Em 2002, 2003, já não havia mais ninguém assim. Ao cobrir o Afeganistão, o Iraque, os jornalistas não podiam mais ver por si só, eles só reproduziam o que lhes era dito pelos militares. Além disso, o governo podia controlar a televisão, a mídia de imagens, a um grau em que se alguém dizia algo que não era favorável aos interesses governamentais, isso era chamado de não-patriótico. Era quase como se você considerado um espião. Isso tirava sua liberdade e suas armas que são inquirir e insistir em algo que parece estar errado, em tentar buscar a verdade, para informar o público americano e o mundo se o governo está querendo esconder alguma coisa.

G1 – O sr. é bastante conhecido pelos perfis de pessoas famosas e notáveis. À parte o fato de Obama ser presidente dos Estados Unidos, ele é um personagem por si só interessante? Ele seria o tipo que o sr. se sentiria atraído para escrever um perfil?

Talese – Ah, ele é provavelmente o personagem mais interessante que eu já vi na minha vida. Digo isso como uma pessoa que vive há 77 anos nos Estados Unidos. Ele é o homem mais interessante de todos porque sua vida é tão improvável, sua história e trajetória são tão inacreditáveis. Desafia a imaginação um homem como esse possa ter se tornado presidente dos Estados Unidos da América. Uma mãe que passa por problemas em seus relacionamentos e está mais preocupada em sua carreira de antropóloga, uma avó branca que cria o neto negro com todo o carinho em um tempo em que isso não era a regra, um pai que ele mal conheceu, e daí ele consegue entrar na melhor faculdade dos EUA e se formar em direito. Depois passa por uma jornada de reaproximação com suas raízes negras, já que ele foi criado em uma família branca, e se casa com uma mulher negra. E o que temos é uma pessoa com essa história e que tomou decisões que possibilitaram que ele atingisse o maior posto nos Estados Unidos. É o sonho americano realizado por uma pessoa que parecia que não teria chance alguma.

G1 – O sr. investigou em “A mulher do próximo” o desenvolvimento histórico dos hábitos sexuais do americanos. Acha que muito mudou desde que o sr. publicou o livro, em 1980?

Talese – Acho que muita coisa não mudou. Nós falamos sobre as mentiras contadas pelos governos. No mundo sexual, as pessoas dizem que tem um conjunto de ideais, mas que fazem outra coisa na prática. Existem conservadores, gente que se diz inspirada pela Bíblia, mas que age como o Diabo na vida privada. Há políticos que protagonizaram escândalos de infidelidade recentemente nos EUA. Isso sempre aconteceu desde sempre, desde a época de John Kennedy.

Já a vida das pessoas comuns é cheia de leis, como a infidelidade sexual, que é considerada uma lei. Acho às vezes que há ênfase demais na sexualidade, que pode ser uma experiência sem maiores conseqüências. Pode ser uma transa de uma noite só em uma cidade do interior. Duas pessoas se conhecem em um avião, passam a noite junto e no dia seguinte cada um segue para o seu lado. Se algo do tipo é descoberto, isso é um evento insignificante, porque não significa nada. Exceto por uma chateação que vai terminar alguns dias depois. Se um casamento de alguma solidez é destruído por uma interação do tipo, então esse casamento não tinha uma base firme para existir. Não que a infidelidade sexual deva ser celebrada.

O fato é que eu não acho que sexo seja assim tão importante. Não acho que um matrimônio seja constituído necessariamente de uma compatibilidade sexual. Um casamento existe porque as duas pessoas têm um respeito enorme um pelo outro. A palavra-chave é respeito para algum relacionamento dar certo, para sobreviver. Sexo não determina a longevidade de um casamento. É o que acontece no café-da-manhã, no dia seguinte. Sexo é superestimado, você pode escrever que eu disse isso!

G1 – O fato de o sr. se chamar Gay já deve ter sido motivo de brincadeiras. Incomodaram o sr.?

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