26.6.09

Um ídolo de todas as classes



Por Julinho Bittencourt


A santíssima trindade do pop vai se esvaecendo aos poucos. Primeiro foi Elvis Presley, depois metade dos Beatles, com John Lennon e George Harrison, no intervalo de muitos anos e, agora, Michael Jackson. Os três ícones têm várias coisas em comum. Encarar a morte dos mitos que inventaram muito antes da própria talvez tenha sido a maior e mais acachapante. Quando morreu, Elvis já não era mais nem sombra do grande astro que deslumbrou a América e o mundo na década de 50; Lennon e Harrison também já não eram mais Beatles há muito e Michael, apesar de ainda arrastar multidões, nos seus últimos anos estava mais para personagem de freak show do que o lindo garoto, cheio de talento e energia, que comoveu o mundo com seu canto e coreografia décadas antes.


A principal diferença de Michael para os outros, no entanto, é muito maior e talvez seja o traço mais significativo de sua trajetória. Ao contrário deles, ele era negro de fato e não um farsante, ou seja, um branco que tocava música de negros, açucarada ao gosto da maioria branca. Sua música é uma fusão poderosa e nunca antes vista de vários elementos da black music americana. A maioria de Michael, por conta disso, acabou sendo muito maior. Vendeu mais do que todos os outros juntos, para todas as classes sociais em todas as partes do mundo. Era ídolo tanto nos guetos quanto nas classes médias e abastadas. A velha fórmula do show business de vender brancos por negros, que vinha desde Al Johnson, na primeira metade do século passado, com sua vergonhosa maquiagem farsesca, caiu por terra com o funk, pop rock, r&b e o rebolado arrasador de Michael.


Por uma estranha e comovente ironia do destino, Michael ficou branco, a medida em que sua música e carreira perdiam importância. Era difícil crer que era o mesmo de discos antológicos como “Thriller” e “Off the Wall”, este um dos maiores álbuns de música pop de todos os tempos. Branquelo, esmaecido, com máscaras de proteção e outras manias esquisitas, foi nos deixando, ainda em vida. Esta semana morreu de vez e, com isso, encheu as ruas de Los Angeles e do mundo de afro-descendentes, que dançavam em louvor ao ídolo.


Com uma carreira tão repleta de truques – é bom lembrar que ele foi nisso também um inovador – é difícil acreditar que tenha de fato morrido. A impressão é que tudo não passa de um grande esquema de promoção de sua próxima turnê. Que a sua ressurreição vai se dar na páscoa, no estádio de Wembley, em Londres, com transmissão mundial para bilhões de pessoas. E este concerto vai superar a audiência da final da Copa da Alemanha, o programa de televisão mais assistido até então. E este terá sido só mais um recorde da carreira de Michael Jackson.

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