23.12.08

Doações de Santa Catarina

"O saque de doações para desabrigados em Santa Catarina foi uma cena difícil de esquecer. Quem viu na televisão ficou envergonhado. Os saqueadores faziam gozações. Vestiam farda do Exército. Levaram até sutiãs. Os outros ladrões eram voluntários. As mercadorias se destinavam a quem tinha perdido tudo. Brasileiros ricos e pobres haviam se mobilizado para ajudar vítimas de uma catástrofe. E se orgulhavam disso. A cena do saque foi um ataque à auto-estima nacional.

Num país onde desembargador vende sentença, policial chantageia favelado, cuecas escondem dólares e euros, políticos do governo compram votos, merendas escolares são desviadas, verba da Saúde não chega a hospital, senadores criam 7.343 vagas de vereadores na madrugada, por que o desvio de donativos em Santa Catarina mexe tanto com o brio do brasileiro? Por que tanta indignação, num país calejado e amortecido por denúncias quase diárias de corrupção? Talvez por expor um desvio bem raso de caráter. É a baixa malandragem escancarada em rede nacional. Aqueles dez soldados e um sargento roubavam a esperança de um Brasil solidário, e nem se consideravam ladrões.

“Quando brasileiros fazem isso, nós nos sentimos ofendidos porque temos um vínculo com eles. São nossos compatriotas”, diz o psiquiatra Luiz Alberto Py. “Não importa que o mesmo se faça em outros países. Não pode servir de desculpa ou justificativa moral. Em Santa Catarina, a gente viu uma atitude que a maioria dos brasileiros repudia, e, pior, esses ladrões achavam estar fazendo uma coisa bacana. O exemplo que vem de cima no Brasil é muito ruim. Os subornos, os mensalões e o roubo institucionalizado provocam uma sensação de que tudo é possível, e ninguém é responsável.”
A cena no pavilhão do Parque Vila Germânica, em Blumenau, Santa Catarina, região rica e instruída do país, revela o ser humano na sua pior luz. O poder, mesmo pequeno, pode corromper. A convicção de estar acima do delito alimenta a leviandade. A farda ou o título de voluntário serviam de imunidade para eles. Os saqueadores tinham o poder de distribuir os donativos. Exerceram o poder sem o menor senso ético. Resolveram distribuir uma parte das mercadorias entre si. “Tem coisa boa. Vou levar este aqui para o meu guri.” A eles, parecia legítimo que outros guris ficassem sem aqueles pares de tênis. Para diluir a responsabilidade, agiam em grupo. Quando todos são responsáveis, ninguém é culpado. É a perniciosa cumplicidade da gangue, a mesma que une jovens em transgressões urbanas.

Os desvios foram poucos diante da montanha de donativos enviados a Santa Catarina. A televisão se apressou em mostrar dois casos exemplares de honestidade no dia seguinte. Daniel Manoel da Silva, de 58 anos, perdeu sua casa e sua fábrica de cachaça artesanal, mas devolveu R$ 20 mil encontrados na manga de um casaco doado. “Mais importante é dormir com a consciência leve. Não fico com o que não é meu”, disse. O outro exemplo foi Brandila Longen, de 71 anos. Ela obrigou filho e nora a devolver as fraldas geriátricas que recebera deles de presente. A nora não se conformou. “Não sou ladra. Quero justiça”, disse a ex-voluntária Teresilda Longen, flagrada pelo vídeo com um carrinho de supermercado cheio de mantimentos destinados a desabrigados. “Peguei as fraldas e uma cesta básica com autorização dos dois coordenadores do pavilhão.”

Aí mora o perigo. Teresilda acha de verdade que não fez nada errado. Porque quem estava acima dela a autorizou. Assim, corruptos-paus-mandados também se sentem inocentes. Alguém mandou, alguém permitiu. Posso roubar? Pode. Posso desviar? Pode. Posso subornar? Pode e deve. Ninguém se reconhece ladrão quando o chefe admite ou enaltece o desvio de conduta.

Fiquei pensando em quantos atos deploráveis são cometidos na surdina e continuam inéditos, porque não foram registrados em vídeo. No fim deste ano, seria interessante se cada um de nós se perguntasse: “Fora da minha intimidade, fiz algo que, se fosse exibido em vídeo, me cobriria de vergonha?”. Sorria, você pode estar sendo filmado."
Este texto é da colunista da revista Época Ruth de Aquino. Achei melhor copiar e colar, literalmente, o texto na íntigra. Achei que o impacto seria maior do que somente publicar uma dica de leitura com um link para a página. É bom para refletir sobre as nossas condutas como cidadãos brasileiros.

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