4.9.08

Aluno da Católica conta como foi cobrir os Jogos Olímpicos de Pequim

Um grupo de alunos e professores do curso de Comunicação Social, Jornalismo, da universidade Católica de Brasília foi para Pequim para fazer a cobertura dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos.

Com o fim das Olimpíadas, fiz uma entrevista com Ailim Braz, 21, estudante do 8º semestre, que participou da primeira turma que cobriu as olimpíadas, e que também vai cobrir, a partir do dia 6 de setembro, as Paraolimpíadas.

A entrevista foi por e-mail. Ele conta um pouco da experiência de participar do maior evento esportivo mundial. O processo de produção das matérias, as pautas e as curiosidades do trabalho. As matérias feitas pelos alunos podem ser acessadas no
blog ucb-beijing



Como foi a preparação para a cobertura?

Ailim - Desde abril deste ano, vínhamos tendo aulas de mandarim, inglês, olimpismo e cultura oriental, além de realizarmos reuniões semanais para discutirmos questões de logística, equipamentos e coordenação do projeto. As aulas de idiomas aconteciam duas vezes na semana, enquanto as demais atividades aconteciam aos sábados. Além disso, também fizemos várias coberturas esportivas ao longo do semestre, como a do Circuito Brasil Paraolímpico Loterias Caixa (que aconteceu em Brasília e em Uberlândia) e o Circuito Sesc Triatlo.

Vocês se sentiram preparados para realizar a cobertura?

Ailim - Eu, particularmente, sim. Apesar de não dominar bem o inglês e, muito menos, o mandarim, já havia participado da cobertura dos Jogos Pan-americanos Rio 2007 e estagiado na área de impresso, rádio, web e tv. Por se tratar de uma cobertura multimídia, isso me ajudou bastante. Mas, no geral, mesmo com o treinamento que vínhamos fazendo, tudo acabou se resolvendo quando chegamos em Pequim. O maior medo da equipe era em relação à liberdade de imprensa na China e à falta de credencial para cobertura dos Jogos. Mas, em Pequim, foram poucas as vezes em que nos censuraram (quase sempre que isso acontecia era porque estávamos tirando fotos dentro das lojas ou de templos religiosos) e nossas pautas puxaram mais para o que acontecia ao redor das Olimpíadas: cultura, história, cidades.

Além do blog, as matérias foram publicadas em outros veículos? Quais?

Ailim - Sim. No blog, temos publicado todas as matérias produzidas pela equipe (tanto da base, como dos correspondentes em Pequim), exceto as de TV e de rádio. E todas as reportagens também são enviadas para os veículos parceiros: Jornal de Brasília, Revista Roteiro, Empresa Brasil de Comunicação (EBC, antiga Radiobras) e Rede Vida de Televisão. A EBC criou um hotsite especial (
http://www.china2008.inf.br) para a cobertura na China e, lá, temos um espaço próprio para publicação de nossas matérias. Também pela EBC, fazemos entradas diárias e ao vivo na Rádio Nacional, onde apresentamos boletins informativos e discutimos o panorama dos Jogos com os apresentadores. As matérias televisivas têm saído na TV Brasil e no canal da Rede Vida. No site desse último (http://www.redevida.com.br) e no da Revista Roteiro nossas matérias também têm sido publicadas. Além disso, o material produzido pela equipe é recebido pela Assessoria de Comunicação da Universidade Católica de Brasília (UCB) e repassado para várias empresas e veículos de comunicação. A publicação de nosso conteúdo é livre, desde que saia com nosso crédito.

As pautas vinham dos veículos de comunicação?

Ailim - Não. Temos autonomia em relação às pautas. Os veículos se dispuseram a receber todas as nossas reportagens e a publicar as que fossem do interesse editorial deles. A EBC, porém, publica todo o nosso material.

Como foram distribuídas as pautas? Elas foram de mera iniciativa dos alunos ou dos professores?

Ailim - Sim. A base, em Brasília, nos mandou algumas sugestões de pauta. Mas não chegamos em Pequim com um roteiro definido. Na medida em que as coisas iam acontecendo, íamos programando. Cada um escrevia sobre o que quisesse e acreditasse ser do interesse do leitor. Conversávamos entre nós para que duas pessoas não repetissem a mesma pauta e íamos levando. Agora, com a chegada de uma nova equipe a Pequim, formada por dois professores e quatro alunos, pretendemos trabalhar de forma diferente. Os novos correspondentes chegam na próxima quarta (04) de manhã (terça à noite pelo horário de Brasília), e queremos fazer uma reunião de pauta geral. A intenção é discutir os erros e acertos da primeira fase da cobertura e elaborarmos um plano de ação. Queremos fazer mais matérias de rádio e TV.

Como foi participar da experiência de um blog coletivo?

Ailim - Divertida e trabalhosa. Divertida porque todos os dias depois da apuração conversávamos sobre as experiências de cada um naquele dia, e alguém sempre tinha alguma situação engraçada ou estranha para contar. A questão da convivência (ficamos hospedados em quartos próximos) também foi difícil em alguns momentos, mas nada muito sério. E trabalhosa porque foi difícil manter um padrão de formatação para as matérias e combinar as pautas. Às vezes, deixávamos de fazer uma pauta que gostaríamos porque o outro dizia que já ia fazer ou estava fazendo. No fim das contas, a matéria acabava não sendo feita por nenhum dos dois. De certo moto, nem todos no grupo estavam com a mesma empolgação.


Como eram os fechamentos? Se eles existiram.

Ailim - A cada matéria apurada e escrita, postávamos no blog e enviávamos para os veículos parceiros. Quando tínhamos fotos para as matérias, conversávamos com os fotógrafos do grupo (Geyzon Lenin e Marília França) sobre a melhor para complementar a matéria e, depois de editadas, postávamos e também encaminhávamos para os parceiros.

Tinha credencial para todos os alunos?

Ailim - Nenhum de nós estava credenciado. Agora, para a segunda etapa da cobertura, teremos quatro credenciais, mas ainda sem previsão de recebimento.

Quais foram os equipamentos utilizados nas entrevistas?

Ailim - Cada membro da equipe possuía um notebook, um gravador (digital ou analógico) e uma câmera fotográfica digital compacta. Tínhamos também uma câmera filmadora semi-profissional, usada para a produção televisiva, além de celulares GSM com chip da China, por meio dos quais fazíamos as transmissões para a Rádio Nacional.

Qual a maior dificuldade enfrentada na cobertura?

Ailim - O idioma e o acesso aos locais de competição. Como a equipe era grande e tínhamos apenas uma intérprete de mandarim no grupo, deixamos de apurar muitas pautas por não termos a quem recorrer como fonte. A maioria da população não fala inglês e, como preferimos não nos identificar como repórteres, para evitar problemas com o governo chinês, ficamos de mão e pés atados. Na falta de credenciais, nossa intenção era comprar ingressos para podermos entrar nos estádios. Mas, nas bilheterias, os ingressos estavam esgotados. E os cambistas cobravam preços absurdos! Nossa saída eram as coletivas com os medalhistas e os eventos na Casa Brasil.

Os atletas foram receptivos nas entrevistas?

Ailim - Sim. Sempre muito simpáticos e atenciosos. Quando os encontrávamos nas ruas ou nos pontos turísticos da cidade, porém, evitavam falar muito. Principalmente quando tinham perdido na competição.

Quem bancou a viagem? Ficou por conta de cada aluno?

Ailim - Sim. Passaporte, taxa do visto, passagens, seguro viagem, hospedagem, alimentação, transporte. Tudo por conta do aluno. Teve gente que vendeu o carro para poder vir. Outros recorreram a empréstimos. Sem contar que tivemos de abandonar nossos estágios ou empregos para participar do projeto que, às vésperas do embarque, recebeu o patrocínio do Banco Itaú e da Vestcom e a promessa de uma verba da Católica. O patrocínio, no entanto, não cobrirá todas as despesas. Estima-se que cada um receba de volta apenas 1/6 do investimento. Um investimento: é assim que temos tentado encarado todos esses gastos.

Neste tempo entre as Olimpíadas e Paraolimpíadas vocês irão continuar atualizando o blog com matérias diferenciadas?

Ailim - Estamos tentando fazer isso.

Qual a expectativa em cobrir as Paraolimpíadas?

Ailim - As expectativas são sempre as melhores possíveis. Se parte da equipe conseguir, realmente, o credenciamento, isso facilitará bastante nosso trabalho, que ganhará novo ritmo. Como passaremos a ter acesso aos locais de competição e aos atletas, a demanda de entrevistas e reportagens será maior. Vamos viver Pequim por outro ângulo: o de jornalistas, e não mais de "turistas" correspondentes. Como fizemos contato com alguns dos atletas, quando ainda estávamos no Brasil, e como o paraesporte é carente de cobertura jornalística, queremos "botar pra quebrar" nessa segunda fase. As Paraolimpíadas merecem a mesma atenção e respeito que os Jogos Olímpicos. E estamos aqui para ajudar nesse sentido!

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